quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Clientes Lendários: Seu Cornélio e Dona Dadinha

Antes de falar do Seu Cornélio, é preciso explicar que todo call center tem um serviço de monitoria que avalia a qualidade do trabalho dos atendentes. A avaliação é feita através de escuta de gravações telefônicas e leitura de registros efetuados nos sistemas da empresa.

Como todos os operadores devem ser avaliados, é impossível monitorar cada atendimento realizado, exceto em operações minúsculas. Por isso a monitoria é aplicada aleatoriamente a uma determinada quantidade de atendimentos de cada operador, de preferência aos que tem menor duração.

Ninguém sabe se Seu Cornélio e sua esposa, Dona Dadinha, conhecem o mecanismo básico da monitoria, mas todos os atendentes da Chove No Molhado conhecem o casal. As vozes denunciam que o homem está na terceira idade e a mulher é bem mais jovem que ele, porém madura.

Todo mês é a mesma coisa: o marido aciona o call center discordando da cobrança do serviço prestado no mês anterior, não entende a explicação do atendente e passa a ligação para a esposa. Ela, muito educada e gentil, compreende e repassa as explicações do atendente para o marido, que logo se declara entediado e diz que vai dormir, anuindo a esposa a resolver o caso.

Quando o atendimento é feito por mulher ou por operador gay, tudo se resolve rapidamente. Mas quando o atendente é claramente heterossexual, Dona Dadinha prolonga o assunto. E com o afastamento do cônjuge, a agradável mulher se torna cada vez mais dengosa e passa a fazer todo o charme que pode para desdobrar a conversa.

Diante do incontestável esclarecimento da cobrança, ela diz que a diferença entre o valor cobrado e o consumo real equivale ao preço do seu gostoso perfume ou da bela e fina lingerie que ela está usando. E quando o atendente tenta se desvencilhar da situação, a mulher pede a ele que aguarde um momento, depois se desculpa e se justifica pela pausa dizendo que estava abrindo o sutiã, pois o fecho incomodava sua pele.

Atordoando ainda mais o atendente, Dona Dadinha acrescenta que o valor da conta é suficiente para pagar a depilação completa que ela fez no dia anterior e manter sua pele macia e hidratada ao longo do mês com o uso de cremes deliciosos. – Você acha que eu abriria mão desses cuidados pessoais para gastar dinheiro em serviços de consumo? – ela pergunta com sensualidade na fala, e tudo que o operador consegue responder é “compreendo, senhora”.

Ela deixa claro que concorda com a explicação do atendente, mas afirma que não teve aumento de consumo na casa e sugere que o alto da conta pode ser resultado de defeito ou furto no serviço – “gato” feito por vizinho. O operador promete enviar um técnico ao imóvel para avaliar tais possibilidades e diz que a cobrança ficará suspensa até que o procedimento seja concluído. Ele pensa que esta é a saída para se livrar do assédio, mas a cliente dá o xeque-mate:

- Em vez de mandar um técnico, por que você mesmo não faz a avaliação? É que não confio em técnicos e não gosto de receber estranhos em casa. Tenho esse jeitinho carinhoso de ser e meu marido está sempre fora ou dormindo. Tenho medo que esses técnicos confundam as coisas, você entende?
- Senhora, posso garantir que...
- Pode garantir que vem? – ela ri e continua - Desculpe a minha ousadia, mas é que você me passa tanta segurança! Raramente me engano e sinto, bem aqui no meu peito, que posso confiar em você. Ah, diga que vem, por favor! Se você vier, prometo que serei a melhor anfitriã do mundo! E aí, quando você vem?

O operador de telemarketing sabe que “avançar o sinal” com a cliente pode resultar em demissão por justa causa. Mas ele sabe também que é praticamente impossível que isso aconteça, pois a duração do atendimento evita que aquela ligação seja monitorada. Em seu espírito acontece uma batalha muito dura entre profissionalismo e desejo. Ele tenta resistir, mas seus sentidos são vencidos pela tentação.

Tomado por devaneios, o operador recorre ao “macete” da confirmação dos telefones, através do qual o atendente informa seu telefone pessoal ou faz a cliente saber que ele guardou os números dela, para que possam se falar após o expediente. Em seguida, ele finaliza o atendimento com maestria, fazendo a cliente declarar que aceita a cobrança e dispensa visitas técnicas.

Na ocasião da observância que deu origem a este texto, o operador que atendeu Dona Dadinha voltou ao call center no dia seguinte bem feliz – tão feliz que, ao mexer nos bolsos da roupa, nem percebeu que deixou algo cair. E então um colega recolheu o objeto com intuito de devolvê-lo, mas, ao ver o que era, o rapaz passou o objeto para outros camaradas de trabalho e todos começaram a rir baixinho.

O operador podia imaginar o motivo dos risos, mas preferiu não perguntar nada para não confirmar a própria hipótese. Contudo, seus amigos fizeram questão de revelar o mistério e mostraram a ele que também possuíam objetos idênticos ao seu: um cordão com a letra D no pingente. O operador caiu na risada com seus colegas e todos combinaram de conversar sobre o ocorrido tomando um chopp depois do trabalho.

No barzinho os colegas de trabalho concordaram que Seu Conério é idoso e não consegue mais fazer sexo, e Dona Dadinha é uma belíssima "loba"que transpira desejo. Ele sempre sustentou as alegrias da esposa e, a essa altura da vida, não impediria a mulher de ter esse prazer. Ela realmente gosta do marido e cuida bem dele, mas ainda precisa (e muito) de sexo.

Concluindo a reflexão, os rapazes entenderam que Seu Cornélio fica feliz em iniciar o contato com o call center e deixar tudo mais por conta da esposa, pois esta liberalidade é sua forma de presenteá-la pelos anos de felicidade no casamento. E Dona Dadinha transa com rapazes de call center, mas dorme abraçada ao marido todas as noites porque o ama – para toda a vida.

Pode parecer que este é o relato de um caso único – e não deixa de ser – mas, na verdade, é a descrição do “modus operandi” de Seu Cornélio e Dona Dadinha, um casal de clientes lendários que usa os serviços de call center em busca de prazeres sexuais.


Observação:

Todo call center tem histórias de clientes que acionam o serviço com alta freqüência, sempre pelos mesmos motivos e usando as mesmas argumentações. Os contatos são feitos várias vezes por mês, por semana ou por dia, mesmo que os motivos estejam resolvidos ou nunca tenham existido. Chamados de contumazes, dependentes, especiais ou invariáveis, entre outras nomenclaturas, estes clientes se tornam lendários nas operações de telemarketing.

A série de textos Clientes Lendários apresenta histórias baseadas em casos reais desse tipo de cliente. Para preservar a identidade dos clientes, das empresas e de seus colaboradores, todos os nomes e cenários adotados nas histórias são fictícios.



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