sábado, 9 de março de 2013

Clientes Lendários: Plínio, A Alegria Do Seu Dia!

Plínio é um adolescente que sofre de distúrbios mentais e adora correr. Ele é inofensivo e essencialmente bom, mas corre em qualquer direção e atravessa ruas sem perceber o risco de ser atropelado. Fruto de uma família muito pobre e desestruturada, ele nunca viveu em condições adequadas aos seus distúrbios.

Em sua última corrida descuidada, o menino cruzou a rua inesperadamente e foi atingido por um veículo que conduzia um grupo de empresários ao aeroporto. Alguns deles deram fricote pelo decorrente atraso na viagem, mas os homens decentes que compunham o grupo repreenderam os colegas e prestaram socorro.

Dividindo as tarefas, um deles se encarregou de dar bronca nos fricoteiros enquanto outro chamava uma ambulância e um terceiro homem ficou segurando a mão do menino e conversando com ele, evitando que desmaiasse e entrasse em coma. Alguém do call center do serviço de socorro falou com Plínio por telefone, conforme o procedimento para situações em que a vítima possa falar.

Por sorte o acidente não foi grave e a ambulância chegou ao local rapidamente. Os fricoteiros foram embora logo após a conclusão dos trâmites obrigatórios, mas os outros decidiram permanecer no hospital até o garoto ser liberado. Poucas horas após a chegada dos pais de Plínio, o médico anunciou que o menino estava de alta.

Quando os empresários foram se despedir do garoto, eles se depararam com um moleque já elétrico, agitado, que olhava para cada um deles com ternura e sorria como se fosse a criança mais feliz do mundo, e dizia:

– Tio, tio, foi você que segurou minha mão quando eu me machuquei, né? O outro tio brigou com os caras que queriam me xingar e aquele ali chamou a ambulância, eu lembro de tudo! Já posso correr para casa, né, tio? Ihhh... não posso, não, falta agradecer ao moço que falou comigo no telefone. Quando é que ele chega, tio? Não posso correr sem agradecer a todos os tios que me ajudaram...

Sensibilizados pelo momento e pela realidade de Plínio, eles decidiram fazer algo mais concreto pelo garoto. Como precisavam retomar suas vidas e seus negócios, eles seguiram viagem, mas em poucos dias contrataram duas pessoas para verificar e suprir as necessidades do jovem velocista.

Tratamento especializado, medicamentos, estudos, alimentação e moradia, tudo foi garantido para Plínio e sua família. As corridas passaram a acontecer em locais amplos e seguros, de forma controlada, e os três empresários visitam o garoto de vez em quando.

Entre tantas mudanças e novidades, as moças contratadas conseguiram estabelecer contato entre Plínio e o homem do call center que falou com ele no dia do acidente. Durante a conversa, o homem disse carinhosamente – “Plínio, que bom te ouvir, você é a alegria do meu dia!”.

O menino ficou tão contente por poder agradecer ao “tio do telefone” que, em meio a tanta empolgação, alguém deixou os números dos telefones do call center nas mãos dele. Desde então, Plínio aciona o serviço todos os dias até conseguir falar com o “tio do telefone” ou com outra pessoa que seja simpática a ele, o que não é difícil de encontrar.

Os telefonemas são sempre muito breves, pois o menino deseja apenas dizer que está passando bem e que seu dia foi muito feliz. E parece que todos atendentes daquele call center gostam muito de ouvir a identificação de quem está ligando quando a resposta é:

Oi! Aqui é o Plínio, a alegria do seu dia!

Graças a três empresários e duas secretárias, Plínio virou cliente lendário de call center.


Observação:

Todo call center tem histórias de clientes que acionam o serviço com alta freqüência, sempre pelos mesmos motivos e usando as mesmas argumentações. Os contatos são feitos várias vezes por mês, por semana ou por dia, mesmo que os motivos estejam resolvidos ou nunca tenham existido. Chamados de contumazes, dependentes, especiais ou invariáveis, entre outras nomenclaturas, estes clientes se tornam lendários nas operações de telemarketing.

A série de textos Clientes Lendários apresenta histórias baseadas em casos reais desse tipo de cliente. Para preservar a identidade dos clientes, das empresas e de seus colaboradores, todos os nomes e cenários adotados nas histórias são fictícios.



Nenhum comentário:

Postar um comentário